O BÊBEDO
Estamos sem conhaque, Amélia.
Como estacionar a vida
sonâmbula
sem conhaque, Amélia?
Este gosto que vem
da incógnita de gestos
é amargo, Amélia.
E sequência de rumos
sem amor.
Convidei a lua
para tomar conhaque,
que lhe direi
quando a vir
da minha janela?
Amélia,
precisamos de conhaque…
Evadir…Sonhar…Amar…
Quantos seres mitológicos num cálice.
Transbordam risos, mutações,
milagres da bebida.
Faz bem beber, Amélia.
É fria a noite das lembranças.
Só o conhaque me traz o calor
que me liberta
desta vida de contrastes
e apaga estas formas nostálgicas
de saudade;
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ABSTRAÇÃO
Andar à esmo pela vida
Ideais, sonhos, nada…
Ser vazia de sentimentos e desejos,
uma simples nuvem
que balança sem rumo
sem pátria e sem amigos.
Não ter necessidade de cansar,
poder chorar de alegria,
ser livre
partir
e não querer voltar.
Levar os sonhos
embalar as fantasias
e morrer lentamente
como morre o dia…
Ser sombra
nada mais
uma sombra apenas
sem forma
na abstração de algu´rm
que passa.
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CREPÚSCULO
Dorme o sol
no longínquo espaço.
Esconde-se a alma
à sombra da vida.
Não mais chegarás à janela
e não mais dirás:
Contemplai o espetáculo!
No crepúsculo sem manhã
que é a vida
teu olhar está vazio
inútil tentar reter
os tons do dia.
Olharás à tua volta
e não encontrarás
teus semelhantes.
Procurarás teus sentimentos
e entre eles,
não encontrarás amor.
É morte!
Morre a grande luz do dia
e em ti, vive a noite
em sua eterna
melancolia.
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RASTROS DE SAUDADE
Rastros de saudade…
Tudo é um tumulto delirante
de hibernação noturna.
Sorrisos, carinhos, juras,
infantil alegria
do sol pelos caminhos…
Rastros de saudade…
Mãos enoremes
rostos amigos
efusão de afetos coloridos
indefinida música
Vênus baila no ar…
Rastros de saudade…
Brancas e apagadas lembranças
dão-se as mãos
e começam a brincar:
” Se esta rua, esta rua
fosse minha…
E a rua? Esqueci
Imenso e amargo sonhar
Viver sem rumo nem parada
sem descanso nem amada
Só… pela vida afora.
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FUGA
Não fixo impressões.
Sonho…
A vida não se modifica
e eu… eu sonho.
Quanto luar abandonado
CHoro…
Acalanto de brisas que passam
É noite…
Noite que se faz
sobre a minha alma.
Esqueço…
Tudo é inexplicável.
Adormeço…
É cansaço.
Cansaço que gera sono
sono que gera sonhos.
Tudo é sequência
distante de esperança.
O meu céu está nublado.
Chove…
Gotas de saudade
inundam meus sentimentos
molham todo o meu ser.
Nada espero,
porém,
meus olhos almejam
novas paisagens.
Minha alma,
nova emoção.
Fuga, silêncio, amplidão.
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PERDA
Era fim de verão
e uma rosa morria.
Uma rosa morria?
Muitas rosas morriam.
Caia uma petala
em meio a tantas pedras
rolava uma folha
que o vento conduzia
Hoje,
tudo parece um sonho
cada vez mais distante
cada vez mais vazio
um sonho perdido.
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ANTIPODA
O olho mágico do poeta
não se cansa nunca
deste mundo que ele divisa
repleto de amor e poesia,
que transforma a cabeça em fonte
onde jorra contínua a fantasia.
Lá fora,
homens envaidecidos,
de cimento e armamentos abarrotados
até penduram arte
em paredes frias,
mas continuam sem saber
que a vida inexiste sem poesia.
E a poesia está aí, a nossa volta,
a cada instante,
marcante e constante
repicar da ousadia
de alucinados e loucos
que têm coragem de falar de amor
num mundo
onde tudo é tecnologia.
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UNIVERSIDADE RURAL
No horizonte
o sol desponta sorridente,
a brisa toca suave e quente
e o verde
abre as portas da manhã.
Assaltam minhas janelas
as primeiras luzes do dia
e este verde
de todos os tons.
Em bandos brincam
os pássaros,
em bandos
as ondas do lago
se encrespam ligeiras,
em bandos
as cigarras cantadeiras
explodem em cantoria,
e em bandos
a poesia invade
minha vida inteira.
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BRASÍLIA
Na noite enígma
nasce incomensurável
a Rosa.
Ermo, desolação, final.
Versos caducos ao acaso
criam formas variadas de expressão.
Mas, na noite enigma
a poesia ri,
só, pura, abstrata.
Cobre-se com a síncope do dia
a distância
entre o ideal e a posição.
Na noite enigma
agasalham-se esquecidos
farrapos.
Sombrias mãos
acariciam pedras
colhem trovões
e relâmpagos imaginários.
Sorrisos indefinidos
procuram
Azul
céu
descanso.
Tudo são absurdos resquícios
do tempo infantil.
(Visita a Brasília em 1970)
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