Poesias


O BÊBEDO

Estamos sem conhaque, Amélia.

Como estacionar a vida

sonâmbula

sem conhaque, Amélia?

Este gosto que vem

da incógnita de gestos

é amargo, Amélia.

E sequência de rumos

sem amor.

Convidei a lua

para tomar conhaque,

que lhe direi

quando a vir

da minha janela?

Amélia,

precisamos de conhaque…

Evadir…Sonhar…Amar…

Quantos seres mitológicos num cálice.

Transbordam risos, mutações,

milagres da bebida.

Faz bem beber, Amélia.

É fria a noite das lembranças.

Só o conhaque me traz o calor

que me liberta

desta vida de contrastes

e apaga estas formas nostálgicas

de saudade;

===============================================

ABSTRAÇÃO

Andar à esmo pela vida

Ideais, sonhos, nada…

Ser vazia de sentimentos e desejos,

uma simples nuvem

que balança sem rumo

sem pátria e sem amigos.

Não ter necessidade de cansar,

poder chorar de alegria,

ser livre

partir

e não querer voltar.

Levar os sonhos

embalar as fantasias

e morrer lentamente

como morre o dia…

Ser sombra

nada mais

uma sombra apenas

sem forma

na abstração de algu´rm

que passa.

=================================

CREPÚSCULO

Dorme o sol

no longínquo espaço.

Esconde-se a alma

à sombra da vida.

Não mais chegarás à janela

e não mais dirás:

Contemplai o espetáculo!

No crepúsculo sem manhã

que é a vida

teu olhar está vazio

inútil tentar reter

os tons do dia.

Olharás à tua volta

e não encontrarás

teus semelhantes.

Procurarás teus sentimentos

e entre eles,

não encontrarás amor.

É morte!

Morre a grande luz do dia

e em ti, vive a noite

em sua eterna

melancolia.

==================

RASTROS DE SAUDADE

Rastros de saudade…

Tudo é um tumulto delirante

de hibernação noturna.

Sorrisos, carinhos, juras,

infantil alegria

do sol pelos caminhos…

Rastros de saudade…

Mãos enoremes

rostos amigos

efusão de afetos coloridos

indefinida música

Vênus baila no ar…

Rastros de saudade…

Brancas e apagadas lembranças

dão-se as mãos

e começam a brincar:

” Se esta rua, esta rua

fosse minha…

E a rua? Esqueci

Imenso e amargo sonhar

Viver sem rumo nem parada

sem descanso nem amada

Só… pela vida afora.

====================

FUGA

Não fixo impressões.

Sonho…

A vida não se modifica

e eu… eu sonho.

Quanto luar abandonado

CHoro…

Acalanto de brisas que passam

É noite…

Noite que se faz

sobre a minha alma.

Esqueço…

Tudo é inexplicável.

Adormeço…

É cansaço.

Cansaço que gera sono

sono que gera sonhos.

Tudo é sequência

distante de esperança.

O meu céu está nublado.

Chove…

Gotas de saudade

inundam meus sentimentos

molham todo o meu ser.

Nada espero,

porém,

meus olhos almejam

novas paisagens.

Minha alma,

nova emoção.

Fuga, silêncio, amplidão.

=========================================

PERDA

Era fim de verão

e uma rosa morria.

Uma rosa morria?

Muitas rosas morriam.

Caia uma petala

em meio a tantas pedras

rolava uma folha

que o vento conduzia

Hoje,

tudo parece um sonho

cada vez mais distante

cada vez mais vazio

um sonho perdido.

=============================

ANTIPODA

O olho mágico do poeta

não se cansa nunca

deste mundo que ele divisa

repleto de amor e poesia,

que transforma a cabeça em fonte

onde jorra contínua a fantasia.

Lá fora,

homens envaidecidos,

de cimento e armamentos abarrotados

até penduram arte

em paredes frias,

mas continuam sem saber

que a vida inexiste sem poesia.

E a poesia está aí, a nossa volta,

a cada instante,

marcante e constante

repicar da ousadia

de alucinados e loucos

que têm coragem de falar de amor

num mundo

onde tudo é tecnologia.

===================================================

UNIVERSIDADE RURAL

No horizonte

o sol desponta sorridente,

a brisa toca suave e quente

e o verde

abre as portas da manhã.

Assaltam minhas janelas

as primeiras luzes do dia

e este verde

de todos os tons.

Em bandos brincam

os pássaros,

em bandos

as ondas do lago

se encrespam ligeiras,

em bandos

as cigarras cantadeiras

explodem em cantoria,

e em bandos

a poesia invade

minha vida inteira.

====================================

BRASÍLIA

Na noite enígma

nasce incomensurável

a Rosa.

Ermo, desolação, final.

Versos caducos ao acaso

criam formas variadas de expressão.

Mas, na noite enigma

a poesia ri,

só, pura, abstrata.

Cobre-se com a síncope do dia

a distância

entre o ideal e a posição.

Na noite enigma

agasalham-se esquecidos

farrapos.

Sombrias mãos

acariciam pedras

colhem trovões

e relâmpagos imaginários.

Sorrisos indefinidos

procuram

Azul

céu

descanso.

Tudo são absurdos resquícios

do tempo infantil.

(Visita a Brasília em 1970)

====================================================