Resenhas


Bazzo, Ezio Flávio.   Vademecum  da vadiagem.    Brasilia: Tripallium, 2023.

Este livro do escritor Ezio Flavio Bazzo é essencialmente anarquista e libertário. Tão anarquista e libertário que chega a doer nas entranhas da moral e dos bons costumes.

Nele, o autor elabora uma fascinante desconstrução do mundo do trabalho e de todas as formas de encarceramento engendradas pelo homem durante sua permanência no planeta.

Tão importante quanto seu livro Mendigos: párias ou heróis da história?, Bazzo nos alerta já no início da obra: “Agora é tarde – o vício já está instalado na alma da espécie!… sem o trabalho, a humanidade, num domingo à tarde, cheia de tédio, se suicidaria”. E continua: “são 6 mil anos de labuta e de fracassos mesmo que a lógica do escravo afirme que é melhor morrer de trabalho do que morrer de fome”.

Também fica evidente a quebra das ilusões acerca da religião, do casamento, do romance, da família, e, citando Corine Meier, diz que “pensando bem, não há que se ter ilusões”. Nunca.

Usando o plural majestático para se comunicar com seu leitor, não parece falar apenas por si mesmo, mas em nome de um grupo que pensa como ele. Assim, vai conduzindo o leitor a diversos países, regiões, cidades e situações para desmoralizar o trabalho e todo o esforço já feito para promovê-lo na sociedade humana.

Por se tratar de um livro forte em suas convicções, vem recheado de erudição, como se fosse um requintado exercício literário.

Ilustrado por Daumier, mestre da litografia francesa do século XIX, é muito bem editado, trazendo o carimbo de ex-libris, marca do autor, carimbo esse usado na Idade Média para os livros especiais e de propriedade declarada, e este seria um livro excomungado – HAI EXCOMUNION.

O cerne da obra parece ser o desejo de mudar o mundo: “desconstruir para tentar construir outra coisa”, pois entende que a relação do homem com o trabalho faz com que a maioria pareça “viver para trabalhar mais do que trabalhar para viver”.

Talvez não fosse de todo insólito, para não deixá-lo órfão de uma filiação estética (filiação que ele recusa peremptoriamente), considerá-lo como uma espécie de “vanguarda das vanguardas”, um sólido pensamento contracultural que não apenas contesta, mas adverte, vaticina a inviabilidade de todos os caminhos e descaminhos – com isso, acenando para uma vagabundagem redentora! Como realizá-la? Teremos de descobrir à la James Joyce, com um work in progress.

Maria Helena Sleutjes

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Leloup, Jean-Yves     A arte da atenção.    São Paulo: Verus, 2009.      152p.

A arte da atenção é um livro que demonstra o conhecimento profundo de Jean-Yves Leloup  sobre o ser humano e sua relação com a vida. Pode ser considerado um livro-mapa, rota, caminho,  mas é, sobretudo, um alerta para a real necessidade de abandonarmos a realidade  binária criada pelo cérebro ( claro/escuro, bem/mal, preto/branco).

Fazendo uma abordagem que procura levar o leitor para o nascedouro do pensamento, para o sopro primordial, a vida, o local onde nasce nossa capacidade de Consciência e Amor,  começa exaltando o dizer através da poesia por ser capaz de se expressar através do silêncio.  Leloup afirma que a poesia é a única religião possível, pois transmuta a consciência através da palavra, considerando-a uma bela forma de brincar com este silêncio maior que se chama “morte”.

O livro é rico em citações, pensamentos, definições que traduzem as experiências do autor como filósofo, teólogo,  padre e psicólogo transpessoal.

Defendendo a tese de que o mundo do relacionamento, do Amor, é o mundo da aliança e que esta qualidade do amor, não é a fusão nem a separação, mas a relação, Leloup calca na “relação” a essência do viver humano chegando mesmo a afirmar que “Deus não é o homem, Deus não é a mulher mas a relação.

Ainda, seguindo o mesmo raciocínio, acrescenta que o sagrado se inscreveria na intimidade dos corpos e assim, “se a sexualidade não for assumida, ela não será salva, se não for salva, ela será má, se for má irá nos infundir o sentimento de culpa e infundindo-nos tal sentimento nos tornará doentes.  Por isso, “ para que se possa estar verdadeiramente com alguém é preciso saber estar só”.

Considerando a vida um exercício evolutivo transmissível, o autor afirma que o que chamamos de exílio é muitas vezes, a terra prometida, e continuando, alerta que se for necessário voltar a algum lugar, voltar àquilo que se é, não existe outro caminho além da atenção, seja ela sensível, afetiva, intelectual ou espiritual.

Chamando a atenção para a proximidade dos termos “oração” e “atenção” demonstra que este é o momento único em que a inteligência e a emoção podem estar juntas e isto nos permitiria sair do inferno que consiste exatamente na ausência de misericórdia, e assim, pergunta: – O que seria a perfeição se não fosse ela mesma a misericórdia? – O que seria a atenção se não viesse de um coração amante?

Explica ainda, que na vida, existem quatro grandes “inevitáveis” dos quais ninguém pode escapar: o sofrimento físico, o sofrimento psíquico ( o absurdo), a solidão e a morte.

No entanto, ressalta o Amor como o único e verdadeiro Deus desde que não seja ídolo e acrescenta que “ não se pode conservá-lo a não ser ofertando-o.”

Leloup lembra que a consciência é una: “pesada na pedra, canta no passarinho na primavera, , toma consciência de si mesma  no homem e usufrui de si mesma no sábio.”

Concluindo afirma que saber orar é saber respirar e aquele que É, é aquele que Ama.

Maria Helena Sleutjes

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Bazzo, Ezio Flavio.    A respeito do Al-kayyat: uma poética dos trapos.   Brasília: Forbize e Digitale, 2025.   192p.

Num movimento de nudez sem volta, Ezio Flavio Bazzo cria uma fascinante narrativa vestindo os trajes de alfaiate, esta profissão quase em extinção e tão antiga quanto a humanidade, para nos dizer, como Gide, que até os pensamentos já nascem vestidos dos pés à cabeça.

Colocando-se na pele desse artista da confecção, o al-kayyat, Bazzo fala consigo mesmo e acaba escrevendo um livro essencialmente anarquista, dando vasão a seu olhar mordaz e mortífero acerca do civilizado mundo de fantasias e máscaras existenciais.

Anarquismo é uma espécie de ideologia política que se opõe a todo tipo de hierarquia e dominação, seja ela política,  econômica, social ou cultural, como o Estado,  o capitalismo, as instituições religiosas, o racismo e o patriarcado.

Seria uma poética dos trapos? É uma poética reversa daquilo que ocultamos do mundo e de nós mesmos quando simplesmente vestimos algo para encobrir, disfarçar, demonstrar, acrescentar, atrair, trair o que verdadeiramente somos.

Isso fica evidente quando o autor nos diz: “ a roupa é outra categoria de pele, derme, epiderme, roupiderme…”  No entanto, Bazzo não deixa de viajar pelo mundo fashion de Chanel, Vuitton, Gucci, Dior entre outros, quando não para desqualificá-los completamente, para poder acrescentar com ironia que “ toda nudez será castigada”.

É um livro para poucos pela quantidade e o nível das informações que se estende às notas de rodapé. Para avaliá-lo mais profundamente seriam necessárias várias releituras.

Desta forma, seu Al-kayyat vai destruindo o que foi edificado pelo mundo dito civilizado ou mesmo tribal, desde que Adão e Eva usaram a folha de parreira para esconder sua nudez. Deve ser por isso que pergunta-se: “ –Como estar vestido e não sentir-se cúmplice de toda essa bandidagem?”

E cuidado, caro leitor,  segundo Bazzo “ hoje até satã usa Pravda”, fazendo um trocadilho com o título do filme – O diabo veste Prada.

                                                     Maria Helena Sleutjes

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Bazzo, Ezio Flávio. Manifesto aberto a estupidez humana. Brasília: LGE, 2007

De todos, este é sem dúvida o livro mais interessante da trajetória do escritor Ezio Flavio Bazzo. Escrito na década de 70, Manifesto Aberto à Estupidez Humana é uma leitura completamente atual. Não é apenas um livro como o próprio título denuncia, é um manifesto que discute afirmando e afirma demonstrando contundentemente o quanto tem sido equivocado o existir humano. Nada mudou, parece querer nos dizer o autor. Assim era na antiguidade, assim é até hoje mas poucos se deram conta de tão grandes e infundados equívocos.

Bazzo inicia o livro com uma explicação do que seria um manifesto, no pensamento de Tristan Tzara e passa a referir-se ao “populacho”, este homem (eu, você, ele ou qualquer um), vítima de si mesmo, da sociedade e consequentemente, dos outros, e assim preconiza: ” tua vida é um monstruoso e trágico engano”.

Com um cutelo essencialmente libertário, Bazzo vai dissecando cuidadosamente o cadáver do homem contemporâneo, preso a uma pseudo civilização, uma civilização que está morta desde seus primórdios, mas ainda continua morrendo todos os dias.

O ponto alto da obra é a denúncia sem rodeios da construção de um sistema que educa para a ausência de afeição e de sexualidade. Aqui o autor toca a maior ferida da humanidade, aquela que continua aberta e doendo. Vai assim, redimensionando valores, severamente incutidos em nossas mentes como se estivesse pontilhando uma rota neste intrincado mapa do existir. Uma rota completamente inversa à que foi percorrida pela maioria.

Sim, porque, conforme o autor, nós somos a liberdade, mas também somos a escravidão. Senhores do bem e do mal.

Sim, porque, conforme o autor, somos ainda corruptos e sentimentaloides, fazemos parte da manada que não consegue livrar-se das crenças bestiais e sonhos mórbidos, pois, como afirma: ” da forma como tudo está estruturado, a vida é feita quase totalmente de luto e dor”.

Retirando o tecido supérfluo do existir sem viver, Bazzo vai corajosamente, demonstrando que as ideologias são inócuas quando o indivíduo não se emancipa perante si mesmo.

Enfatiza que a infelicidade humana reside na falta de prazer em mergulhar na vida e entende que o homem vive simbioticamente a tirania de quatro enfermidades : a família, a escola, a igreja e o estado. Não satisfeito continua: “para ser livre só é necessário querer. Agora, como a liberdade é honesta, só se pode alcança-la com reserva, serenidade e decência.

Alertando-nos para o fato de estarmos gastando a vida para ganhar a vida, faz as duas perguntas mais pertinentes da atualidade:

– “Por que não sabes ser algo em liberdade hoje?”

– “O que te faz investir toda a tua vida no amanhã?”

E depois conclui: ” lança teu olhar para além dos arames farpados e acredita mais em teu coração que nos teus olhos…Não é possível criar um mundo verdadeiramente novo, saudável, livre e prazeroso, educando os homens para que sejam idiotas, falsos, tímidos e servis. Pelo contrário, é necessário educá-los aventureiros, libertinos, céticos, valentes, anarquistas e donos de seus próprios corações… Enfim, mesmo convicto de que a vida é em si mesma absurda e ilógica, acorda. Sai desse estado cataléptico e luta!”

{ o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com}

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Bazzo, Ezio Flávio. A lábia encantadora de João do Rio. Brasília: Plagiattus, 2003.

O livro de Ezio Bazzo, ” A lábia encantadora de João do Rio” foi arquitetado com todo o cuidado para se tornar uma forma de revelação do mundo das ruas impregnado na alma de João do Rio. João do Rio, este escritor quase maldito, mergulhou ” deliberadamente nas sombras cúmplices da madrugada urbana” e lá, foi buscar os elementos essenciais para afirmar que existe um mundo paralelo bem diante de nossas barbas e que dele não nos damos conta, e ” em Benares ou Amsterdam, em Londres ou Buenos Aires, sob os céus mais diversos, a rua é a agasalhadora da miséria.

Contendo 46 fotos feitas por Bazzo de personagens das ruas do mundo ( Paris, Montreal, Brasília, Istambul, Katmandu, Atenas, Córdoba, Roma, Havana, Jerusalém, entre outras cidades), fotos que entremeiam os textos de João do Rio em perfeita consonância e revelam a situação das pessoas que habitam as ruas, a existência de uma cultura singular e assustadora, densamente povoada e sedimentada em bases seculares do abandono.

O livro é o retrato desse mundo a parte e à flor dos olhos de todos, cegos, que ainda assim, lado a lado com os alijados da vida social, não conseguem ver esta realidade torta, desprezada à própria sorte.

Desde que João do Rio começou a falar sobre este estado de existir, o existir na rua, e o descreveu no calor de seu sentir ( final do século XIX) até hoje, nada mudou. Estão aí as ruas e os seres vivos-mortos que as habitam. As fotos de Bazzo comprovam este fato e ainda, por ironia, são atualíssimas, como se tivessem sido tiradas ontem.

Em seus textos, tal como Bazzo, João do Rio, desce ao inferno para nos mostrar seus meandros, para nos falar deste anjo decaído que somos nós. Eles estiveram lá!

{ o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com}

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Bazzo, Ezio Flavio. Vagabundo na China. Brasília: Lilith Publicadora, 1991.

Portando uma câmera Cânon e diversas lentes, seu olhar arguto, seu sentir trabalhado e sua forma peculiar de interpretar o mundo, Ezio Flavio Bazzo foi até a China em 1991 como vagabundo – aquele que não tem compromisso nem consigo mesmo – e nos trouxe este livro exótico, no formato e no conteúdo.

  • Seria um tabloide com notícias sobre o país de Mao?
  • Seria um livro que passa em revista toda a concepção histórica desse mundo monumental, assim, num piscar de olhos?
  • Seria um guia de viagem para pessoas mais exigentes?
  • Seria um documentário para o mundo ou seria um livro para ninguém?

O livro é tudo isto reunido. Algo meio indefinido que contém impressões, sensações, referências, pinceladas, cliques que o autor parece ter feito para guardar para si, mas os divide conosco. Pequenas doses de uma China que ninguém viu, episódios que ganham significado no relato pela forma como são apresentados.

No formato, se apresenta maior que os livros comuns, suas orelhas são de abano, seu texto está dividido em duas colunas, está ricamente ilustrado com fotografias tiradas pelo autor e antecedendo a folha de rosto, o título da obra aparece desenhado em ideogramas chineses. Abaixo uma nota “bazzoniana”, completamente cínica: Título traduzido para o chinês por M… uma chinesa anônima. Na abertura um pensamento de Chateaubriand : As pessoas que nunca navegaram têm dificuldade para entender os sentimentos que se experimenta quando, do convés do navio, já não se vê mais do que a face austera do abismo.

Assim, ele nos apresenta a China.

No recorte, é o livro que mais revela o autor, seu sentir incomum, suas experiências simples e plenas de significados, a fala e o olhar do homem que transita bem pelos planos heterogêneos da realidade e da alma e desliza sorrateiramente para um entendimento maior da vida, onde tudo se aproxima e se assemelha. É a câmera virada para si mesmo mas cercada das cores da China, do existir desse povo que os ocidentais jamais compreenderão suficientemente.

O livro nos leva embora e só nos traz de volta no que ele denominou de ” epílogo inesperado”, onde recebemos de presente uma entrevista que Emil Cioran concedeu a um jornal francês. Cioran, considerado pelo autor, o filósofo mais interessante da atualidade, fecha o livro assim, sem mais nem menos. Como se tudo, de fato, estivesse interligado, e só não percebessemos, este é um livro que nos leva com maestria para as dobras da nossa emoção introspectiva – esta grande e maravilhosa viagem!

{ o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com}

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Bazzo, Ezio Flavio. Viagem ao fundo do galinheiro: por quem os galos cantam: ( uma hermenêutica dos claustros). Brasília: Bilis Negra, 2021.

Neste livro de 414páginas, Ezio Flavio Bazzo escolheu os galos e os galinheiros como pretexto para empreender uma grande e significativa viagem ao âmago de si mesmo e do sentido da vida.

Vai reunindo aqui e ali, personagens, episódios, paisagens, memórias, e com seu olhar de viajante experiente mostra ao leitor, retratos, fragmentos, retalhos, de todos os tamanhos e de todos os formatos de um cotidiano igual em toda parte: insípido, desprovido de sentido, tosco, cambaleante, inaceitável.

No livro ele se encontra, sempre de forma superficial, com muita gente que cruza seu caminho tendo o galo como personagem principal. A partir desses encontros casuais tece sua visão de mundo e dos seres.

Pesquisou, estudou e descobriu muita informação sobre galos, galinheiros, rinhas. Foi lá nos estudos de biologia e zootecnia para encontrar o galo-bankiva ( gallus-gallus) ancestral da atual galinha doméstica. Pode-se observar durante a leitura que muita gente contribuiu espontaneamente com informações sobre um assunto tão estranho. Tao estranho quanto o é a vida e a história do ser humano.

A narrativa ressalta a beleza dos galos, sua postura viril, sua belicosidade, sua tirania sobre as galinhas e o convívio sempre estreito deste animal como o homem que o admira e domina desde tempos imemorais.

Falando sobre galos, galinheiros, pessoas comuns e suas rotinas de vida, não pode deixar de falar no claustro. O claustro que ” é capaz de alterar o DNA até de uma pedra”. O claustro que parece ser a condição de todos.

É uma viagem para poucos, realizada à luz do intelecto, repleta de frases e pensamentos que evidenciam a cultura do autor.

Funciona mais ou menos como folhas ao sabor do vento e do canto de todos os galos do mundo, com a pergunta desprentenciosa que a acompanha: – Para quem os galos cantam? Que aqui ousamos responder: Para Ezio Flavio Bazzo, é claro!

{ o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com}

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Bazzo, Ezio Flavio. Entre os gritos do carcará e a desfaçatez da raça humana. Brasília: Bucentauro, 2006.

Neste instigante livro, Ezio Flavio Bazzo realiza um voo espetacular sobre o fato de estar vivo, aqui, agora, em qualquer lugar, há qualquer hora, tendo como pano de fundo o sertão Sanfranciscano, num Brasil perdido de sua própria história.

Através de uma narrativa que mescla pleno domínio das usuais formas acadêmicas de expressão com o conhecimento empírico da vida, usa palavras elaboradas e palavras “chulas” como se quisesse nos dizer que viver é essencialmente, transitar por entre as contraditórias dimensões da realidade, e apenas isso.

Salpicando o texto de erótica sensualidade, Bazzo transita facilmente e com aparente despretensão pela cultura cristalizada destes rincões perdidos, atravessando sorrateiramente as questões ambientais, político-sociais, éticas, morais e históricas desse pedaço de Brasil entregue à própria sorte.

Trabalhando apenas com a realidade nua, desprovida de sentimentos, emoções e ideais, vai recheando a narrativa com estilhaços que doem e vai linkando às suas impressões descritas, teses que empalidecem rostos complacentes, esbofeteiam sorrisos, desnudam a credulidade cega e sobretudo, incendeiam qualquer resto de esperança.

Seu livro é essencialmente, um grande e articulado GRITO!!

[o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com]

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Bazzo, Ezio Flávio. Inventário de cretinices ou o prazer de jogar pérolas aos porcos. Brasília: Siglaviva, 2014.

Pensando alto, o escritor Ezio Flavio Bazzo, escreve. Sem dúvida, o mais literário de todos os seus livros. Um livro de viagem onde a alma do escritor se torna a paisagem, os fatos, os episódios, as pessoas. E assim, observando a vida, vai realizando seu inventário de cretinices com aquilo que registra no comportamento humano. Esbanjando cultura, bom humor, e total descontração, e em sua linguagem habitual, nos diz: “nunca tive notícias na história do mundo, de outro ser que implorasse tanto para seguir existindo, para trabalhar, para ser acorrentado a uma escravidão, a um amor, a um vício, a uma fé, a uma pátria, a uma bandeira, a um frontispício de bordel… que gastasse a vida ingenuamente tentando converter o supérfluo em necessário…”

Inventário de cretinices é soberbo ( no sentido de estar além) a começar pelo texto das orelhas, com seu alto poder de crítica, onde Bazzo se coloca no lugar do leitor para questionar o que foi escrito, e pergunta: “E se estiver certo?”.

O livro fala dos anões…Fala sim. É permeado por fotos e referências aos anões, talvez uma homenagem a estes seres olhados como anômalos e severamente discriminados como o são as minorias indefesas. Mas, fala com vontade de Marseille, esta região da França que escapa da França tendo o mar e o vento Mistral como aliados. Onde a língua francesa ganha um sotaque mais intenso e marcante, onde a história se acresce de anos de história. O livro fala também da China. Tudo pretexto. Prestem atenção. Anões, China, Marseille são pretextos, porque o livro inteiro transborda mesmo e se centra na perplexidade do autor com o mundo que criamos e a raça humana. E assim, ele registra: ” a vida, este ensolarado cativeiro… Como viver num planeta com gente que acredita em milagres?…A dor pisoteia qualquer tipo de revolta, principalmente a infantil e a poética… Condenados a pena de morte antes mesmo de nascerem, os homens passam seus setenta anos embromando… Cuidado com poetas e professores…”

Não dá para ler e não admirar esta coragem de dizer o que tantos fazem tudo para camuflar, e assim, ao final do livro só nos resta perguntar: E se estiver certo?

[o livro pode ser adquirido na livraria das Absurdidades, no blog do autor: http://eziobazzo@blogspot.com]

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Bazzo, E.F.    Mendigos: párias ou heróis da cultura?        Brasília: LGE, 2010.    203p.

Ao que me parece este é o mais maldito de todos os livros do escritor Ezio Flavio Bazzo.  Este livro desafia a lei da gravidade e você tem que estar com pelo menos um pé no futuro para não virar de cabeça para baixo.  Mestre em criar perplexidades através de seus textos, Bazzo parece ter escolhido este tema com a intenção de demonstrar  a liberdade que o homem comum não tem,   nunca teve,  nem supõe existir ou  ousa almejar.

Este livro avançou no tempo, como todos os livros deste autor, de forma que sua compreensão, leitor, exige uma visão mais abrangente do ser humano e da dualidade que o acompanha e que pode fazer dele um acolhido ou excluído, um astro ou um verme, um pária ou um herói e ainda assim, isto não é o que mais importa, o que genialmente o autor demonstra, pois ainda assim, o homem não deixa de ser o que é.

Bazzo inicia seu livro apresentado a nudez da mendicância  através de pensamentos de três grandes escritores: Cioran, escritor e filósofo romeno/francês que tinha como axioma a “inconveniência da existência”;  Jean Genet, o controvertido escritor francês autor de “O balcão”,  e o grande poeta alemão Holderlin, o poeta preferido de Heidegger,  cuja lírica sintetiza o espírito da Grécia Antiga.

Para transitar neste universo, o autor saiu fotografando os mendigos pelo mundo afora. Estas fotos que falam por si mesmas permeiam a narrativa juntamente do relato das viagens que empreendeu nesta jornada, episódios de sua passagem por várias cidades da Itália, Grécia, Egito, Israel, Turquia…  E fotografando os mendigos, vai aprofundando-se na trama de chegar o mais perto possível deste mundo que baniu as tradições, os dogmas, os ensinamentos, os códigos, a civilidade. Deste mundo que está à mercê de sua própria sorte ou é de vez em quando dizimado pelo poder constituído. Deste mundo grandemente rejeitado e por isto mesmo invisível e Bazzo é brilhante quando fala desta invisibilidade, onde seus adeptos parecem não existir, como fatos episódicos.

No capítulo chamado Trechos Alheios?, o autor elenca autores consagrados e algumas de suas falas sobre o assunto.  Aqui, apenas uma pitada de alguns: Henry Miller, (Nascer na rua significa ser livre), Shakespeare no seu endiabrado Timon de Atenas (Tudo é obliquo, nada está a nível na nossa maldita natureza senão a infâmia manifesta); e o Mendigo voluntário de Nietzsche, do seu “Assim falou Zaratrusta”, obra que dilacera as crenças, os ídolos e analisa toda a gênese da culpa, além de tantas outras.

Ézio Bazzo encerra seu livro com 65 aforismos sobre o assunto.

Estes arranjos produzidos pelo autor para explorar o tema tornam o livro um ensaio incomum.  Coloque incomum nisto!

Mendigos, quem são?  Eles ou nós? Párias ou Heróis? Eles ou nós?

Nunca saberemos.  

Existir como um nada é algo a que não estamos acostumados nem em pensamento.  Então, o livro assusta e conquista, porque afinal, Bazzo está falando de nós, seres humanos – da forma mais escancarada que se pode imaginar.

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