Prosa poética


PROSA POÉTICA

Mais um dia, mais um mês, mais uma ano de chuvas. As chuvas vieram para ficar. As flores estão encolhidas, encharcadas, tristes… As folhas, pesadas, balançam dizendo não…não…não.

Chuva…chuva…chuva… no céu predomina o cinza e a abóboda se curva carregada de mágoas e ressentimentos.

A chuva lava tudo, os sentidos, as cores, os espaços vazios e os objetos raros guardados no porão.

Maria Helena Sleutjes

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PROSA POÉTICA

A poesia sempre esteve por aqui. Muitas vezes correndo solta pela casa branca e ensolarada. Outra vezes, dormindo sobre almofadas floridas para abismar as pessoas.

A poesia, por vezes, percorria os cantinhos da casa em busca de aventuras. Aventuras para os sentidos . Pendurava-se às cortinas, adornava as paredes nuas de cores e luas, de borboletas aladas e de gárgulas, estas estranhas criaturas.

Outras vezes, a poesia subia no telhado vermelho e quente e ficava lá do alto apanhando sol. Um completo perigo pois se a poesia cochilasse, despencava.

No telhado, a poesia gostava de ornamentar os pássaros e de enluarar as pessoas.

A poesia esperava lá do alto a chegada dos amigos que não vinham.

Às vezes, a poesia sonhava com um amor que não existia , que estava depositado na quintessência da paixão a espreitar a vida. A poesia, entào, se desiludia, se enviuvava, se comprimia, arfava ferida de morte, se contorcia mas por fim, sobrevivia.

Por vezes, a poesia se cansava de tudo , se escondia atrás da porta e ficava por lá o equivalente a eternidade.

Neste estado, a poesia só confiava nas palavras. Era lacaniana.

Quando se recuperava , gostava de fingir que era água para irrigar as lavandas.

Gostava de plantar sementes do nada e colhia lírios.

Maria Helena Sleutjes

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PROSA POÉTICA

Vão-se os dias e a juventude. Aos poucos a vida escoa pelas encostas, desce vertiginosa, vira poça d’água e nos transforma.

Ficamos idosos de repente.

De repente, nos tornamos repetitivos, atrevidos, insolentes, e sem direito a ter ideias próprias. E lá dentro, o descompassado coração, esperando um afago, um sorriso, alguma atenção.

Todos deveríamos morrer jovens!

Maria Helena Sleutjes

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